04 julho 2008

Você acredita em Boitatá?

Há algo de estranho no ar. A libertação de Ingrid Betancourt parece lenda folclórica. Alguém realmente acredita que uns caras chegam no meio do acampamento das FARC, no meio da selva, com um helicóptero e blusas do Che, dizendo se tratar de uma ação humanitária e os dois (apenas dois) soldados que escoltavam os dois maiores trunfos políticos da guerrilha (de novo, apenas dois soldados!) entraram no helicóptero sem pestanejar?

O histórico da guerrilha não é este. Quando, há coisa de alguns anos atrás, o exército nacional tentou, através de uma operação militar libertar 11 reféns, entre eles políticos colombianos, todos foram mortos pelos guerrilheiros, para que não fossem resgatados. Porque uma refém do vulto de Ingrid não fariam isso? Sério... Se você fosse um guerrilheiro colombiano, de esquerda, daquela esquerda da guerra fria, marxistona, e visse no meio da selva uns caras armados e com blusas do Che saindo de um helicóptero, você pensaria "Ei, olha lá galera, são nossos amigos! Vamos entregar nossa maior refém a eles porque eles não vão fazer nada demais!"?


O que realmente aconteceu? Não sei. Não sou dono da verdade, mas dá uma olhadinha na imagem abaixo:

Estas duas são a mesma mulher. A direita é como todos os envolvidos alegam que ela estava enquanto era refém. A esquerda, como ela chegou. Tá bem gordinha, né? Podemos até arriscar um sobrepeso, não acham?

Que todo esse circo que querem que eu acredite é falso, não há dúvidas. Existem algumas teses. A primeira, e mais crível pra mim, é a de um acordo feito pelo governo colombiano com as FARC. Possivelmente a entrega de Ingrid foi uma troca. Bom para Uribe (capacho estadunidense), que levanta esse troféu como uma vitória no continente, minando a liderança de Chávez e da pretensa guinada esquerdista sulamericana, além de usar esta moeda política em favor da sua tentativa golpista de implantar seu terceiro mandato (quando Chávez tentou, a imprensa norte-americana e suas filiais daqui logo gritaram; e olha que ele fez por um referendo democrático). Bom para as FARC, que, segundo estão dizendo, fez um acordo de pacificação de lutas e pode ter recebido aval do governo para virar um partido político legitimado, além de resgatar o apoio popular da década de 1980. Quando, naquela época, houve esta tentativa, após ter eleito uns 30 deputados e algumas centenas de vereadores, todos foram mortos pelo governo. Agora isto pode ser azeitado. A questão é: a suposta vitória de Uribe é uma vitória da democracia? (questão colocada pelo professor Francisco Teixeira, da UFRJ)

Uribe é conhecido pela sua ligação com o tráfico. Era amigo íntimo de Pablo Escobar, o famoso traficante morto numa blitz em 1993 (clique aqui para ler sobre isto). Acabou de deportar aos EUA alguns traficantes presos que estavam dispostos a relacionar todos os políticos colombianos que detém ligações com o tráfico. Rapidinho ele manda os caras pros States pra calarem a boca e formigarem em alguma prisão de segurança máxima. Esta prática, aliás, é bem corriqueira. Fica a pergunta no ar: as FARC são realmente os maiores traficantes da Colômbia, que utilizam do dinheiro do tráfico para práticas ilícitas, criminosas, ou melhor, terroristas? Escrevi outro post sobre isto; clique aqui para ler.

Não podemos esquecer que Ingrid Betancourt foi adversária de Uribe em sua primeira eleição, não tendo chegado ao final do pleito, por conta do sequestro. Os teóricos da conspiração dizem até que o sequestro de Ingrid teria sido arquitetado pelos EUA junto com Uribe, mais suscetível ao fracassado Plano Colômbia e às políticas americanas na região, e que a senadora Betancourt teria ficado todo este tempo em um cativeiro no meio das florestas de Yellowstone (escolhi qualquer floresta). Não acredito, claro. Porém, creio piamente que a antiga querela Uribe X Betancourt será agora reacendida, e que basta a senadora querer para se tornar a nova presidente colombiana em 2010. Álvaro Uribe criou sua própria derrota.

Como fica o continente após isso? Colômbia assume um papel importante, política e economicamente. Sai de um segundo plano para a frente das relações. Por um lado é bom, pois fortalece o continente; por outro é ruim, pois alimenta a presença imperialista estadunidense, via Bogotá.

É esperar pra ver.

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