10 fevereiro 2007

Balada para João Hélio

Olhei pra foto no jornal
E chorei.
Não verti lágrimas,
pois meus olhos de pedra
e meu peito enrijecido pelos dias cariocas já não suportam lágrimas,
mas por dentro chorei.

Neste dia em que todos tem opinião, queria não ter opinião.
Queria não ter motivo pra opinião como essa.
Queria que eu deitasse e apenas dormisse.
Não queria a raiva que sinto.
Não queria desejar a vingança que entorpece.
Queria apenas um dia comum e de praia.
Queria que o rapaz apenas chegasse em casa para dar um beijo no pai.
Queria apenas que todos chegassem em casa pra mais uma noite de descanso.
Queria que as pessoas desejassem o bem.
Não queria todo este mal...
Queria que o sofrimento fosse um aprendizado
e não a destruição.
Queria que esses meninos celebrassem o amor e a paz.
Queria que essa mãe chorasse a felicidade de mais um aniversário.
Queria que as pessoas se ferissem por cacos de vidros.
Queria que a morte redimisse.
Queria que a vida não fosse mensurável.
Não queria o ódio geral,
nem a comoção.
Queria o respeito, a coletividade, o sorriso,
e não a tristeza, a ira, a espuma na boca.
Não queria ter visto sangue no chão.
Queria ainda acreditar no Homem.
Queria a anormalidade.

Mas hoje não consigo.
Hoje sou Homem, como eles e como todo mundo.
Hoje me repulsa a idéia de pertencer à espécie.

Hoje é um dia comum no Rio.
Apenas um dia comum, com pessoas comuns e um fato comum.
Como eu queria que o comum não existisse,
e que hoje pudesse apenas dizer que o amanhã será tão anormal
que João Hélio ainda estaria vivo!
Mas não... não neste dia comum do Rio de Janeiro.

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