Pedrinho gostava de Giulia
e Giulia gostava de Pedrinho.
Pedrinho jogava futebol
e fazia gols e dribles fantásticos
e tentava impressionar seu amor.
Giulia suspirava de paixão
e torcia por Pedrinho campeão.
Pedro mandava cartinhas,
arrancava margaridas ao chão
e comprava maçãs-do-amor,
tudo para Giulia.
E ela, revirando os olhos pra cima,
com as mãos no peito,
suspirava de paixão.
Um dia, chegou Paulinha,
nova vizinha da rua.
E Pedrinho esqueceu Giulia,
e agora fazia gols para a nova vizinha.
Mas Paulinha não suspirava como Giulia
e não virava os olhos,
nem levava a mão ao peito.
E Pedrinho, triste e arrependido,
chorando, com uma margarida na mão,
foi até a casa de Giulia,
implorar a ela o seu perdão.
E viu as duas se beijando,
abraçadas, como um só corpo.
Este foi o primeiro beijo de Giulia.
27 julho 2006
O primeiro beijo
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O Trenzinho
Lá vai o trenzinho
partindo de novo.
Lá vai o trenzinho
pertinho do povo.
Lá vai o trenzinho
bufando fumaça,
fazendo barulho
por onde ele passa.
Lá vai o trenzinho
pra algum lugar.
Lá vai o trenzinho.
Não quero parar!
Lá vai o trenzinho
em lápis pastel
todo colorido
pintado em papel.
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O poeta em mim
O que faz de mim poeta?
É este campo de sofreguidão;
a angústia de viver sem chão;
o coração e o corpo na sarjeta?
É o desejo de um amor que arremeta,
que expurgue de mim essa aflição,
que em conluio com minha solidão
atinja em mim a mesma seta.
Escrevo versos sem nada saber
como quem, em si, tenta ver
no puro sofrimento, razão.
É a vontade de amar e crer,
e o desespero e a paciência de viver
que fazem de mim poeta por intuição.
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24 julho 2006
Psicografia
da claridade do céu.
Não, eu não acredito na força da repressão
Não consigo imaginar que possa ser boa
E ela passa longe dos meus objetivos de libertar
Por tanto tempo eu estive com você a viajar
Conhecemos lugares diferentes
Comigo você era feliz
E eu eu por minha vez, segura e infantil
Tudo em seu lugar, como deveria ser
Para não cortar-te as asas
Deixe que eu te leve
Não corte-me o direito de dar meus primeiros passos
Permita-me os gritos
E assim suas risadas, a minha voz
A sua voz!
Sim, admita que eu te liberto quando me aproximo
É ao acaso justo se privar de sonhar?
E certo me fazer calar?
Cala-te quando te passar pela cabeça se afastar
De mim, que sou parte tua
De ti, que já me compõe
Faz com que a saudade que sentes de mim te mova
Corra ao espelho e me enxerga
Pois sou você, com algumas correções
Se estou mais próxima do bem
Como posso fazer-te mal?
Se sou pequena pra caber em teus braços
Deixe-me crescer em sonhos
Pai leve-me no colo quando o sono me levar
Conte-me uma história quando ele me faltar
Abraça-me bem forte no dia que eu chorar
Enxugarei suas lágrimas
Sim, sei que vais chorar
Olha só pai, é filho meu correndo e não eu
Ei, presta atenção...aqui!
Peguei você de novo pensando no passado
E as lágrimas que caem nessa terra
Fazem brotar o nosso ipê
Lembra que plantamos no jardim?
Claro que lembra, você mesmo me deu
Nesse dia eu vi que perdi um feijãozinho
E em seu lugar fizemos - juntos
Brotar a árvore das nossas vidas
Caí e levantei
Porque confiei em você, no seu olhar
Só te peço hoje que confie em mim também
Hei de curar-te dessa dor e pôr amor em seu lugar.
*********************************************
Escrito por Noemi, presenteado a mim.
A ela, meus agradecimentos...
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18 julho 2006
A voz de Maria Luiza
A voz de Maria Luiza ecoa silenciosamente na minha cabeça
e no coração ressoam os gritos desesperados de aflição.
A voz de Maria Luiza ressoa em meu peito durante o sono
e me aperta e me trucida em dor enquanto acordo
E ouço também ruídos e estampidos ensurdecedores
e canto tentando aouvir minha própria voz.
Mas a voz de Maria Luiza ainda está perto demais,
e alta demais, e calorosa demais.
O que eu faço com Maria Luiza?
Calo sua boca com um afago e um beijo?
Ou calo sua boca tapando meus ouvidos?
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13 julho 2006
Paráfrase de uma criança inexistente
Ontem te vi em outra
Te vi, mas não te reconheci.
Em outra casa te vi nascer.
Te vi nos teus primeiros passos
e chorei.
Te vi cantar,
brinquei no jardim contigo,
te dei a mão e te puxei ao colo
e chorei.
Não.
Eu não te vi.
Eu te senti, na semelhança do nome
e na fulgidez da idade.
Te senti na inocência dos olhos
e no riso e no choro desconjuntados.
Não.
Não era tu.
Era meu desejo, simples desejo,
de te ter aqui do meu lado;
de poder ter tudo o que vi;
de poder te ter em meus braços
como nos vídeos que vi ontem.
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Consolação
Ela que pinto,
Vazio que sinto.
Palavra que vai,
Frio que me cai.
Confusão chega
em mim se aconchega.
Sofrimento nela,
Tentação na janela.
Esquece tudo?
Eu sei, me iludo.
Eu vou me encontrar
em outro lugar
e enquanto esse risco,
me consolo, me rabisco.
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11 julho 2006
Tristes Flores
Tristes flores em um jardim deserto.
De manhã, uma procura sedenta;
de noite, com seus botões abertos.
Tristes flores de beleza murcha,
de pétalas podres que caem jovens,
de pólen amargo que ninguém degusta.
Tristes flores regadas a açoite,
maltratadas pela inveja da Rosa,
ainda que simples Damas-da-Meia-Noite.
Tristes flores de caule espinhento.
Da Rosa têm somente o espinho,
mas não o desejo do dedo sangrento.
Tristes flores de perfume inodoro.
Te ver sozinhas e rejeitadas no chão
me aperta o peito e, assim, choro.
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10 julho 2006
Poemas
Eu não decoro poemas.
Poemas não são para serem decorados.
Mas há gente que os decora
para recitá-los a qualquer hora.
Como tratam os poemas...
Como um mendigo vagabundo e desleixado.
Eu não choro com poemas,
mas já chorei com alguns.
Lágrimas de sangue e de tinta
manchadas no papel de quem pinta
agruras, desgostos e problemas.
Meu choro de letras é incomum.
Eu não sinto poemas,
tão pouco alguma misteriosa intenção.
Eu sinto a palavra convertida em dor.
Sinto a felicidade, sinto a angústia do autor.
Poemas não são sentimentos, são dilemas.
Mas quem sou eu pra dizer o que são?
Eu escrevo poemas.
Eu me transformo em uma palavra vã.
Eu me decoro, eu me pinto,
eu me choro e eu me sinto.
Escrevo poemas como quem blasfema,
e ainda assim escrevo-os com afã.
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A Nuvem
A nuvem paira lá no morro
A nuvem branca, com certeza,
me faz parar na varanda o tempo.
A nuvem se esparsa ao vento
e acima dela somente a lua;
e atrás da nuvem, o vulto imponente.
E vagarosamente a nuvem caminha,
a nuvem fina e inocente,
no escuro anda despercebida.
A nuvem pequena, desgarrada,
perdida em céu limpo e negro.
A nuvem é o olhar na madrugada.
Nuvem fraca, que não se aguenta.
Nuvem que agora é névoa
e que se espalha no vazio imundo.
Oh nuvem! traz pro mundo
tuas gotas de chuva fria
e não esta lágrima de sangue
na qual este mundo imundo se sustenta.
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Sonata de uma madrugada
Passa a chuva
e com ela passará também a tempestade
e o vento.
E as estrelas e a lua poderão novamente ser vistas.
Mas ainda sim é madrugada.
Interminável madrugada.
É melhor esperar o sono deitado.
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O Cachorro
O cachorro que vagueia vagabundo
entre pontapés, poças e carrapatos,
que na rua encontra seu próprio mundo;
O cachorro que não escolheu a solidão;
que recebe o asco e o nojo de quem passa;
que é mendigo de carinho e atenção;
O cachorro que é o melhor amigo do homem -
não o poodle, da ração importada,
e sim o vira-latas, de quem nem come;
O cachorro de quem o mundo fez miséria
invisível sempre, nascido sabe-se onde...
que encara a vida como uma pilhéria;
É o mesmo cachorro que dá nome
Ao que chamamos de "mundo cão".
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As quatro paredes do meu quarto
No meu quarto há quatro paredes
cada qual com seu dever.
Uma abre-se, mutilada,
para exibição do mundo que fascina.
E mesmo com a linda alvorada
teimo, com a cortina, esconder vista tão bela.
Esta é a parede da janela.
Outra, ao contrário da primeira,
exibe a beleza que o homem criou.
E meio que calada e sorrateira,
mostra arte, memórias, histórias em retratos.
Esta é a parede dos quadros.
A outra sustenta conhecimento.
É como um canto educativo.
É onde vou a todo momento
procurar um acalento criativo.
Esta é a parede dos livros.
A última é a mais essencial.
É a parede que mais me importa.
Afinal, de que adianta janela ou quadros
ou livros numa estante torta,
sem, no quarto, a parede da porta?
(ainda sujeito a modificações)
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04 julho 2006
Head Shot
Se eu pudesse apresentava vocês dois,
numa mesa de bar em Ipanema,
bem de frente pro mar.
Pediríamos três chopps
(ou qualquer outra coisa que valha).
Os dois com uma estranheza no rosto;
os dois com o medo nos olhos;
os dois com o coração a mil.
Um diria que é pela causa;
o outro diria: "Que causa?"
Um diria que a morte redime;
o outro teria medo dela.
Um diria: "Vá embora!";
o outro diria: "Quero ir embora!".
Um diria: "Viva a liberdade!";
o outro também.
E assim o papo se tornaria discussão,
e a discussão, briga.
E eu, até então calado, diria:
"Olhem para Deus!", e apontaria o mar de Ipanema.
E quiçá os dois se calariam e,
pela primeira vez pudessem concordar
em calar a boca, abrir os braços,
e juntos sentir as mesmas lágrimas de Vinícius.
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