26 junho 2006

Tentativa de um conforto

Neste mundo de dor e caos
O teu escudo é inútil e ruim.
Neste momento que te sentes mal
O teu esconderijo não é o fim.
É tua beleza que aparece,
Mais que tudo que tentas encobrir
Instigando teu coração tão grande;
Mais que tudo que pensas querer
Inventando outra, enquanto desfaleces.

23 junho 2006

Canção da covardia

E assim as coisas vão e vêm,
no balanço do tempo,
no vagar do trem...
Só não esqueça de mim,
nem agora ou nunca
porque te quero bem.
Se é o começo ou o fim
importa agora o coração
que de sangue e de paixão
pensa mais além.
Imagina o penhasco,
grande e perigoso,
que você pode cair também...
Deixa minha dor pra mim.
Poupo teu peito. Assim,
não corre o risco sujo
de me ter sem ter ninguém.

Apenas mais uma sobre a vida

É incrível a quantidade de pessoas que reclamam da vida
Eu mesmo, as vezes, me torno uma delas
mas acho que não tenho esse direito.
E aí, poderia justificar essa premissa com todos aqueles clichês famosos
do tipo: "a vida é bela" e tal.
Mas não.
Não tenho esse direito porque simplesmente a vida não acabou.
E quando acabar, não vou ter voz pra reclamar.
A não ser que venha incorporar em algum médium-psicógrafo.
Eu não posso reclamar de algo que ainda está em curso,
que ainda me apresenta possibilidades infinitas
e que dependem muito mais de mim do que de qualquer outro alguém.
Seria reclamar de mim
e me colocar como uma pessoa que não a aproveita.
Prefiro vivê-la.
É melhor, mais gostoso, mais promissor e mais inteligente.
E prefiro me espelhar nos que reclamam
e apostar que quando eles se forem de vez
vão realizar que não fizeram outra coisa na vida
a não ser torná-la uma grande assembléia de condomínios.

Vai te catar, sujeito...

Olha só aquele sujeito!
Cospe no chão como quem fala
que o mundo cabe dentro da sala
e, cheio de si, bate no peito.
- Vai te catar, sujeito!

Olha ele dizendo besteira.
Falando alto pra tentar se impor,
distorcendo a idéia simples do amor,
arauto tolo de uma burrice ligeira.
- Vai te catar, sujeito!

Olha ele apontando o dedo
e gritando ressentimentos vis
e depois de uma colocação infeliz
mantendo os olhos escondidos de medo.
- Vai te catar, sujeito!

Olha agora o mesmo sujeito
com a cara esparramada no chão
descobrindo (quiçá) seu personagem vão
despedaçado em cacos espalhados sem jeito.
- Vai te catar, sujeito...

Recado para Baiano

Agora te entendo, amigo.
E contigo exaspero o bocejo
ainda como que um gracejo,
e também como um sarcasmo,
acordado, deseperado contigo
eu permaneço insômine e pasmo.

Como pode a natureza vencer
a própria natureza, meu Deus?!
E tirar de dentro de mim o apogeu
de um simples dia de cansaço?
Já sei o que pode ser.
Ela fez de mim palhaço!

E agora nada me resta a esperar
este sono torpe se comover
e reassumir aquilo que é seu dever:
desmaiar meu corpo momentaneamente.
E pra ti, amigo, tenho apenas para ofertar
pena e compreensão, infelizmente.

De pé

Te perdi.
E agora com a vista embaçada
rezo pra te ter de volta.
Nessa solitária madrugada
me perdendo em vãs conversas e devaneios de pessoas distantes de mim,
penso em ti como um desejo eminente.
E bebo mais um gole na esperança de me possuir
com tua fúria cansada
e com o teu entorpecer de mais cedo.

Como faço pra te ter novamente?
Essa impotência desesperada
e meu silêncio inquietante...
Eu quero deitar de novo contigo
e viver a fantasia dos sonolentos.
Mas me abandonaste por ora.

Meu consolo é saber que vais voltar;
que irás me devolver a calma
e me fechar os olhos pra cair de novo em ti.
Que podes fugir por agora
mas voltarás, sim. Voltarás
com força maior ainda.
E então poderei dormir tranquilo.

22 junho 2006

Não é poema, é sentimento

para uma amiga em especial que me inspirou o meu centésimo poema

Eu quero sofrer por amor
antes que sofrer pela morte.
Quero acreditar nessa dor.
Quero apostar na sorte

de reencontrar aquele pudor.
Quero o grito; quero no peito o corte.
Quero enxergar nos olhos a cor
dos olhos de alguem forte.

Quero um amor-adagio;
quero um colo bom;
quero, talvez, um naufrágio;

quero o tom e o semi-tom;
quero o amor como um plágio;
quero o silêncio e quero o som.

16 junho 2006

Soneto do sofrimento falso

De tão distante o coração chora
e verte lágrimas de sangue.
E de saudades vividas do agora
vazio, de ti ele se exangue.

Ornado em dor e em pranto vil,
caído em chão de terra imunda,
no meu peito pobre e juvenil
só o amor sofrido abunda.

Tenra tristeza calada e inerte...
Desta lágrima que o coração verte,
chegada ao chão, e agora incolor,

brota o caule que me reverte
e a alegria que por ora perverte
o coração morto e vazio de dor.

Cochilo na Rede

Sabe quando um sonho vem
E pede ao sono que o traga;
e quando o peito o sono afaga
deixando saudades do que não se tem?

Pois bem, os sons de longe chamam
Trazem imagens, risos, simpatias
e cantam belas e simples melodias
e poesias lindas ao sonolento, declamam.

Acalmam a alma, adormecem-no de vida
Absorto em fantasia, eis que dorme enfim
Dos risos desabrocham gargalhadas

Na tez petrificada; na imagem por ele erguida
Reside, não a certeza de um fim
E sim, a dúvida de rumar a qual estrada.


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Poesia minha e de Noemi
Feita em conjunto.

04 junho 2006

O mito da (minha) caverna

Neste meu tempo de reclusão
de mim mesmo a mim mesmo
luto por descobrir caminhos que me levem
a um futuro próximo e confortante.
Neste ostracismo ao qual me coloco
para me distanciar deste mundo vicioso
procuro uma procura que me coloque
longe de todos e perto de mim;
forte pra todos e fraco pra mim.
Sim, porque a fraqueza é boa
quando se é de si mesmo.
É autoconhecimento gratuito,
espécie de post-scriptum de uma alma perdida.
Neste meu tempo de perguntas,
neste meu filme sem fim,
nesta minha música sem letras
espero nada além de um afeto.
Não de transeundes ou desconhecidos,
muito menos de pessoas próximas.
Espero um carinho meu,
um simples balançar de mão
que não seja mais um adeus qualquer.

Se eu fosse a mão
afagaria o chão e não o vento.