Minha amada e querida filha,
esta que ao mundo não veio,
e que por puro e cruel receio
fez da vida escrava da morte.
Que fez tu a tua sorte?
Teu espírito agora torto;
meu olhar em ti, absorto
em mar de lágrimas, sem nenhuma ilha.
A vontade de ti em meus braços,
agora transtornada em saudade,
impede teu pai da realidade
de acreditar no sangue a tua volta.
E por mais que minha ingrata revolta
contra quem é a verdadeira culpada
pessoa por mim outrora amada
transforme meu coração em pedaços,
saber que foste de uma vez
e que não a verei correr pelo jardim;
ver o início perder para o fim
faz de mim homem morto e incompleto.
E agora, o sonho de ti, como feto
recém saída do ventre mágico
confunde-se com teu corpo estático
que vejo na fronte de minha tez.
E esse sangue que corre de teus olhos,
os mesmos olhos grandes e castanhos,
que um dia fez de Deus um estranho
ao, inerte no paraíso, ser poetisa
me trazem tristeza e ódio ao peito
que um dia abrigou tenro amor.
Quero dizer-te com lágrimas e dor:
Adeus, minha filha, Maria Luiza.
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