30 maio 2006

Carta de um pai aflito

Minha amada e querida filha,
esta que ao mundo não veio,
e que por puro e cruel receio
fez da vida escrava da morte.

Que fez tu a tua sorte?
Teu espírito agora torto;
meu olhar em ti, absorto
em mar de lágrimas, sem nenhuma ilha.

A vontade de ti em meus braços,
agora transtornada em saudade,
impede teu pai da realidade
de acreditar no sangue a tua volta.

E por mais que minha ingrata revolta
contra quem é a verdadeira culpada
pessoa por mim outrora amada
transforme meu coração em pedaços,

saber que foste de uma vez
e que não a verei correr pelo jardim;
ver o início perder para o fim
faz de mim homem morto e incompleto.

E agora, o sonho de ti, como feto
recém saída do ventre mágico
confunde-se com teu corpo estático
que vejo na fronte de minha tez.

E esse sangue que corre de teus olhos,
os mesmos olhos grandes e castanhos,
que um dia fez de Deus um estranho
ao, inerte no paraíso, ser poetisa

me trazem tristeza e ódio ao peito
que um dia abrigou tenro amor.
Quero dizer-te com lágrimas e dor:
Adeus, minha filha, Maria Luiza.

28 maio 2006

A Morte de Maria Luiza

Maria Luiza, na beira de um penhasco, paralisada e atônita, olha pra baixo e chora. Não consegue acreditar. Todo o tempo que esperara ali, trancada em um vasto mundo de solidão fora em vão. "Como pôde ela? Como pôde fazer isso?", pensou. E agora, paralisada e atônita na beira de um penhasco, Maria Luiza chora.
E olha pra baixo, com desejos de tristeza. O que fazer agora? E ela se perde em sentimentos aflitos e agonizantes. Desesperada, a solução chega em forma de asas invisíveis. E, 150 metros depois, o corpo de Maria Luiza agoniza em um chão enlameado e sujo. E sua respiração, ofegante e desritmada, sinaliza a ela mesma a chegada do fim.
Apenas uma criança. Apenas uma vontade. Decepção.
Maria Luiza jaz, torta e ensanguentada, na terra em que tanto quis viver.
Adeus Maria Luiza.

Sem Nome II

E eu que acreditava
Que acreditei em tanta coisa...
Idiota é quem acredita
Idiota é quem acredita em amor e compra perfume barato
Em ambos a essência se esvai quando menos se espera.

Surpresa

Tolo é quem acredita em verdade.
Tolo é quem confia.
Tolo é quem preza a sinceridade.

Não se esqueça:
Homo Sapiens não são nada além de bichos
e os bichos são mais humanos que nós.

Linhas tortas, eu sei.
Não se preocupe...
Tolo é quem acredita em sentido também.

25 maio 2006

O cigarro

Eu nao sei porque o cigarro me inspira.
Essa nuvem de idéias esparsas que saem da boca
de repente se alinham e formam frases esparsas
que se alinham e formam versos esparsos
e sai um poema (meu).

Essa transcendencia do expelir, do expulsar...
Essa burrice do engolir...
Botar pra dentro o trauma, o desejo...
Pensar em Freud ao ver a tenra fumaça...

O cigarro me inspira.
Até quando?

Se eu estava fumando quando tortuei nessas linhas?
Me responda você...

21 maio 2006

Oração

Se o caos me caísse das mãos
e a ilusão me deixasse desnudo de horizonte;
Se a mentira abandonasse meus ouvidos
e se a tristeza desistisse de mim,
eu nada seria.

Se a melancolia pendesse de meus olhos
e a carne voltasse a ser sangue;
se o rumo novamente fosse destino
e se o amor não mais fosse desafeto,
eu nada seria.

É como bússola sem norte;
como guerra sem armas;
como vida sem morte;
como tentar sem perigo.

Se eu fosse em felicidade
Se a perfeição fosse em mim
Se o impossível existisse
Se a alma se acalmasse
Seria pobre
Mendigo em terreno escuro
Vagabundo perambulante
Peregrino da incerteza.

É preciso o mal, a dor
É preciso ter na mira
para cantar ao mundo
a minha ínfima e normal existência.

07 maio 2006

Um dia

Radiografia será pintura
Exame será poesia
Bula será literatura
Cura será magia

Tempo será distância
Saudade será nostalgia
Conforto será ganância
História será elegia

Se a vida passa num segundo
- Este que surpreende o incauto
E devassa a mente em desaviso -

Enxerga de longe o mundo
E percebe, lá do alto, que
Existir é ser, em eterno paraíso