27 abril 2006

Os outros

A minha vontade era escrever um verso pra cada pessoa que conheço
Gostaria de eternizar cada uma em minhas palavras
De desenhar em devaneios os meus amores, todos
Meus amigos, minha família, meus desafetos
Até os desconhecidos que clamam por uma atenção desnecessária
Afinal, todos são um caso de amor

Mas faltam palavras, falta paciência, falta tempo
Prefiro me falar, me eternizar nos outros
Me rabiscar no desprezo alheio, no carinho inesperado
Na confusão do viver-ao-lado
Prefiro me ser, me ter, me fazer em outras faces e corpos
É assim que me existo, que me sinto

É melhor amar através de sentimentos
Que tentar cunhá-los em palavras vãs e tortuosas
E que nunca conseguirão traduzir a essência
Do meu viver-amar-sofrer-viver

26 abril 2006

17

Luzes apagadas
Uma taça de vinho tremendo
Um pouquinho de solidão amiga
Um pouquinho de lembranças
Eu com um ar melancólico, borrado pela fumaça do cigarro

São só palavras, letras cintilantes
Companhia em mais uma madrugada...
Não, são também crenças
Distâncias de tempo
Dizeres não ditos

Posso? Tenho? Quero!
Vou? Não sei ainda
Escondo-me em um não-falar
Faço graça, provoco o riso
Abrevio a incerteza

Espelho de beleza
Aula de coração

24 abril 2006

A stupid poem in a stupid moment

I'm lost
I'm insane
I'm everything I always depised

So, I'm angry
And I want just to lay down
And cry my suffering
And enjoy my sadness

Leave me alone at this moment
I'm sad and I don't want anyone around

18 abril 2006

A chuva

Chuva sempre me deixa melancólico.
E, na verdade, este estado de espírito não tem sido novidade ultimamente.
Talvez porque me lembre lágrimas,
o cinza do céu enconberto,
o barulho intermitente dos telhados,
a quietude das pessoas reclusas em casa.
Talvez...

Eu sei que gosto de chuva, gosto de frio,
gosto de ficar de madrugada imaginando
as pessoas encolhidas na falsa proteção do cobertor
e de ficar na varanda olhando;
apenas olhando.

O céu azul é muito falso.
É muito alegre, é muito vivo.
Quem é assim o tempo todo?

Minha côr é cinza,
meu clima é chuva.
Prefiro me banhar na melancolia das lágrimas de chuva
que me perder no azul azul demais de um céu fantasia demais.

13 abril 2006

Confissão

Eu espero que isto me console.
Eu quero que isto me console.
Mas não sei se vai me adiantar.
Eu quero entorpecer em um sono duradouro,
hibernar em uma caverna de solidão.

Quero brincar sozinha.
Quero chorar sozinha esta dor inexplicável.
Quero fazer de mim uma garrafa no oceano,
com uma mensagem bem pequena,
que diga apenas a quem encontrá-la que eu existo.

Eu estou angustiada.
Não sei mais o que fazer.
Tudo é errado em mim;
tudo é torto em mim.

Não dá pra dormir aqui.
Não há sono que desfaleça o cansaço, porque não há cansaço.
Deixa-me brincar sozinha agora.
Vou chorar sorrindo,
afinal, sou criança.

Por M. L.
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também em Quando Ela Quer Falar <http://quandoquerfalar.blogspot.com>

Ode à Deusa

Eu nunca fiz um poema pra você.
Nunca escrevi melodiosamente pra ti.
Logo tu, que és a musa preferida dos poetas,
que é o início de toda a vida de um verso prematuro.

Todas as noites em mim,
às vezes invisível, outras brilhante como ouro;
mas sempre ali presente, olhando para o mundo de longe.

Um cigarro, e viajo até ti, pra te acariciar em pensamento
e te demonstrar o meu amor.
Mulher e mito, meu oceano se curva aos teus pés
e se enche de lágrimas quando o sol se vai.

É na escuridão que fazes teu mistério.
Em tua nova fase, cheia de negra luz,
que me desespero e procuro tua face.

Sozinho, tu és minha companhia na madrugada.
És minha mulher, deusa, beleza,
meus olhos no breu de minha estrada.

Sem ti, descobri, não sou ninguém.
Pra ti este poema, dedicado a uma inteira vida ao meu lado.
Pra ti esta ode; para cantar-te a companhia ocasional
que fazes a todos deste mundo.
E quem sabe este mundo possa um dia cantar
a maravilha que canto hoje:
te ter toda noite
e te ver entre o brilho celeste e a escuridão do infinito.

11 abril 2006

Hoje não estou afim de escrever

Hoje não estou afim de escrever.
Quero ler
Bandeira, Pessoa, Drummond, Vinicius...
Quero me ler, isso!, e reler minha dor
Compartilhar no espelho isso que chamam de amor.

Ô coisinha danada!
O dia que eu conseguir entendê-lo escrevo o cânone dos amantes
definitivo, verdade imortalizada por mim.

Por enquanto sou apócrifo
Por enquanto só leio.

10 abril 2006

O morador

"Aí Tinhão, tudo bem?
Esse cara vacilou
Foi assaltar meu carro
Não sabia e se ferrou!

Moro aqui há muito tempo
Sou antigo, sou da área
Mostra agora pr'esse puto
Que aqui não tem vez, canalha.

Morador é respeitado
E se não sabe, nós destrói
Quer assaltar, tirar teu pó
Vai lá em baixo e pega os playboy!"

"Pode deixar Leleco, vai.
Fé me Deus, tu é sangue bom.
Dou uma coça no moleque
Vai descendo e escuta o som."

E Leleco desce a rua
Com um sorriso de esplendor.
Regozijava-se em vingança
Aos gritos de "Pára, por favor!"

E chega em casa, beija o filho,
Senta e liga a televisão.
No jornal, violência e fome.
"O mundo está uma perdição"

Margarida

Pétalas que caem ao meu capricho
Ou ao do momento.
Frágil flor de tenra alvura.

Pétalas que se perdem ao sabor do tempo;
Caem no lixo.
Pólen de cor negra e de ternura.

Pétalas que rasgam no dente do bicho
E não perdem formosura.
Caule seco e espinhento?

Pétalas que formam no chão, a cura.
Bem-me-quer!
Felicidade que some no vento.

Insômine (culpa sua!)

Afaga o meu rosto, vai!
Deita a tua mão em minha face doída
e afaga.
Teu carinho é o meu desejo em segredo.

Deixa eu afagar teu rosto, posso?
Eu ponho meus calos em tua bochecha
e afago.
O meu carinho é um jeito de te ter em mim.

Afaga meu ego, por favor!
Escreve tuas palavras pensando em meu rosto
e afaga.
Tua letra é um véu de consolo pros meus olhos míopes.

Deixa eu afagar teu ego, posso?
Escrevo torturas e inspirações pensando em ti, meu anjo,
e afago.
Meus desejos desnudos em uma vergonha vã.

Afaga minha boca, beija?
Encosta teu desconhecido lábio no meu
e afaga.
Tua boca é fruto do doce sangue de teu sofrimento.

Deixa eu afagar tua boca, posso?
Dizer com a língua o que digo à pena
e afago.
Tecer os anos de diferença em saliva sem voz.

Apaga o meu desejo, agora!
Que o medo e a similaridade me impedem de te avançar.
e apaga.
Quero teu sofrimento; sou canibal e necrófilo.

Deixa eu apagar este poema, posso?!
Que teu branco rosto e tua Moscou são intrigantes,
e apago.
Meu secreto desejo é afagar-te toda, nada mais.

Lágrimas vermelhas

Gosto de sangue.
É vida e morte ao mesmo tempo,
é inicio e fim.

Fale!
Cuspa o sangue que ainda tem na boca.
Rasgue o peito para cair a dor que te consome.
Se essa veia que te entope os olhos nao te faz cair ao chão
cospe esse sangue;
finca as unhas no peito e rasga as vestes de pele,
e chora as tuas lágrimas vermelhas.
Escreve em sangue as tuas palavras doces
e dá adeus (arrivedérci) à flor do mal-me-quer.

09 abril 2006

Paixão por letras

Estranho isso... Paixão por letras...
É violeta a palavra que vem.
Distante paixão, escrita além
Do que possa explicar a caneta.

Escrevo vontades, alguém.
Tiro o lápis e o papel da gaveta.
Espero que o sorriso me submeta.
Paixão por letras... Amém!

Lendo o texto que me fala,
Meu eu em outra pessoa,
Escuto a voz que não se cala.

E vendo o rosto, beleza que voa,
A imaginação resvala,
E a paixão ressoa.

03 abril 2006

Dali de cima

Entre os galhos entrelaçados
Prefiro a morte a solidão.
Neste tronco, até o chão,
Sempre os nomes mal talhados.

Daqui de cima avisto a terra
Microscopicamente viva.
Invejo a folha e a formiga.
Mordo o fruto e o gosto se encerra.

Pendurado, perco o tempo.
Nas folhas, ouço o barulho do vento.
Esqueço a vida, vagueio em Deus.

Dessa semente que sobra na boca
Morta, sem vida, de matéria oca,
Nasce um (não tão simples) adeus.