31 março 2006

Vendaval

Eu não respeito tempo ou lugar.
Não respeito minhas companhias,
nem mesmo minha condição humana.
Só respeito a elas, inavisadas, replicantes.
Não porque este título de falso poeta me sobreponha sobre algo,
(se é que isto é um título),
muito menos por desgosto da vida, incontestável prazer,
mas porque elas me conduzem; hoje mais ninguém.
Elas sustentam minhas bambas pernas.
Elas cuidam de mim.
Hoje, ninguém mais.

A elas primeiro meu respeito!
Onde for, quando for, com quem for...
Que venham! Venham mostrar o rosto outrora escondido.
Venham assassinar o anonimato das entranhas do ser.
Cantem o louvor de ouvir o som cacofônico do vagabundo.

Eu não respeito nada nem ninguém.
Sou apenas complacente e subalterno.
Não extinguo loucuras, só porque são loucuras
e não recrimino a sua eterna infância.
Eu deixo-as fluir, como o imperioso vendaval
que chega manso e só se faz visível naquilo que toca.

Meu mistério dos dias de hoje

Onde está ele,
agora, fora da tela;
figura sem rosto,
de costas pra janela
do mundo; oposto
ao que hoje é real?

Onde está o arauto
de sua própria morte;
beato da tradição errática;
descobridor incólume de sua sorte?
Ilusão ou história fantástica?
Sucessão ou final?

Onde estão os olhos
cegos de si mesmos,
impotentes de ver à frente,
guiando o futuro a esmo,
relutantes em usar lentes;
estes olhos de olhar venal?

Onde está o Homem,
extraviado, num limbo disperso;
esquecido no desenho da criança;
outrora cantado em prosa e verso,
agora sem cor ou esperança;
com cheiro de terra e cal?

26 março 2006

Um cão que fala (e responde)

A Bruno "Baiano" Araújo

Desce uma lágrima,
não perdida,
com destino certo.
Ela desce, passa pelo rosto.
Com a face enrijecida
pelos falsetes do tempo,
a lágrima rega a pele
e trás um sorriso paradoxal.
Ela desce,
e vai pelo pescoço,
trás um novo ar
abandonando os soluços,
e trazendo alívio
pro asmático respirar.
E ela desce,
a lágrima continua a descer
até chegar ao peito.
Rega o coração.
Este coração quase derrotado,
sujeito a variações climáticas,
recebe a lágrima, não amarga;
não desventurada; não infeliz.
Aleluia!
A lágrima é de amizade,
este amor mais amor que qualquer outro,
este inexplicável bem-estar.
A lágrima rega.
Rega um deserto promissor.
Um deserto com um oásis,
de amigos, de pessoas minhas.

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Obrigado pelo poema.
Tocante, comovente e muito EU.
Sua amizade é valiosa, saiba que este seu sentimento é muito recíproco.

Um abraço, meu querido amigo

A Bertold Schmidt, antes que aconteça o pior

Desespero.
Cai de joelhos e pede.
Não consegue a solidão.
A procura agora é sua.

Não sabe tocar a música.
Perde o senso de direção.
Verdade? Desespero.
Vento em um abismo de erros.

Ora o pranto que chega,
Ora o sorriso que falseia.
Coração batendo. Desespero.
Enterra vivos a bandeira e o galo.

Desgaste e desprezo juntos.
Uivos de tristeza pairam.
É o fim de tudo? É o começo?
Sabe-se lá! Desespero.

Caminha tortuosamente na estrada.
Mistérios de uma mente, vida.
Que é isso que realiza?
Desepero é o que é.

23 março 2006

Pés de barro

Te forjei em pés de barro
e em pesado bronze no teu corpo.
Li estórias pra te inventar
e te criei em mistério insolúvel.
Te matei com água e sal.
Te pari com dor.
Te vi e não te vi.

Te menti pra mim mesmo
e acreditei com sofreguidão.
Te colori em preto e branco.
Te rasguei em pedaços meus.
Te bebi e vomitei;
caí e ainda não levantei.

E agora te expurgo em canções;
expulso os males que me deixastes;
reinvento meu espelho;
sonho novos pesadelos.
Agora viajo pra perto de mim;
crio frases com sentido mínimo.
Me engano e me reengano
em uma fantasia que visto por gosto.

Larga minha mão, sai.
Tira as pedras do meu caminho.
Limpa o lodo que me reveste os olhos.
Vai, que vou atrás. Não olhe.
Vou tomar o caminho incerto.
Vou beber do córrego.
Vou, e não sei se volto.

22 março 2006

Canção para Daniel

Se eu pudesse sentar com Daniel
em torno de uma mesa de bar,
dois copos de cerveja a nossa frente,
uma porção de torresmo para beliscar;
milhares de dúvidas latentes...
O que será que primeiramente
poderia eu, para ele, perguntar?

Perguntaria como anda a vida.
"Mal", diria ele a mim;
"Anda meu peito cheio de amargura.
Esta tristeza, será, não tem fim?"
Diria então: "Acalme-se amigo.
Estive e sempre estarei contigo
Mude os olhos, não enxergue assim"

Ele então rebateria seco:
"Caro desconhecido, de tudo nesta vida tentei.
Tudo que ao meu alcance estava, fiz.
Não mais aguento estas desventuras, cansei."
"Querido amigo, por favor, não desanime.
Na vida a gente sofre e depois se redime.
Falo por experiência, coisas que passei."

Então a lágrima escorreria dos olhos
De um Daniel triste e ressentido,
pedindo desesperadamente por remédio
que cure, de uma vez, coração partido.
"Tal remédio, amigo, no mundo não há;
o importante é viver a vida, quiçá,
Sem por nada ter se arrependido."

"Aprecio suas palavras desconhecido
e certamente já me sinto melhor.
Mais um copo de cerveja, somente,
pra deixar passar, na marra, o pior."
E então, com a voz tremida
os olhos cerrados, a cabeça caída,
desataria em lágrimas, misturadas ao suor.

"Entenda isso", desolado, eu diria,
"para o amor não existe cura.
Terreno fértil e espinhoso
é sempre, sempre fonte de amargura.
Como tocar uma flor sem murchá-la?
Como prender a voz que não se cala?
Amor, amigo, é dor e é ternura.

Sempre estive contigo, amigo;
e fique certo, sempre hei de estar.
Não me conhece de face ou nome,
mas ao teu lado estou pra te acompanhar.
Sempre me preocupei em te proteger.
Não me conhece; é meu reflexo que te vê.
Me escuta amigo, deixa a vida te levar."

Então me diria: "Estranho desconhecido...
muito estranho todo este escarcéu.
Você senta comigo, me dá bons conselhos,
me mostra, no Inferno, o caminho do Céu.
Mas não sei por que se esconde...
Vai, me diz logo qual teu nome!"
"Meu nome, amigo, é Daniel."

03 março 2006

Até logo...

Para Lê

O passo é sempre a espera do caminho;
Nunca da parada.
O silêncio é sempre a esperança da voz;
Nunca da mudez.
A morte é sempre a certeza da vida,
Ainda que na memória de quem fica;
Nunca a certeza do fim.

A lágrima que pende ao rosto certifica
a essência do que se sente pelo outro.

Chora.
Amar e sentir a falta não é para todos.
Solitariza-te.
Contigo (somente) mora a resposta da dor.
Brinda a morte.
Ela é bela.
Se por ela não fosse, que sentido teria a vida?