26 dezembro 2005

Não importa o tempo

"O amor é sofredor, é benigno. (...) Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta."
I Coríntios, 13

Toda mulher que tenho é um amor.
Chego a esta conclusão, é provável, preciptadamente.
Mas essa voz contínua do vento batendo no gramado,
esses dois beija-flores brigando por um simples copo de água com açúcar,
aquele homem desgraçado, lá longe, trabalhando em sol a pino,
enquanto eu, burguesamente, me desenho em tolices;
essa amargura pra interpretar a vida,
sólida, solidária na minha solidão,
me fazem especular que amo cada mulher que tenho.

Alguns amores duram quatro anos e pouco;
outros apenas quatro meses e pouco.
Mas ambos são amores.
Ambos sofrem, desiludem, desventuram;
ambos trazem a memória imagens de tempos e lugares.

Não posso macular outra cidade com um novo amor...
Me mudarei para algum canto ermo
pra ver se levo pra bem longe essa dor.

Toda mulher que tenho é um amor;
todo sofrimento que sofro é uma dor;
toda dor que dói no peito é solidão;
toda solidão sou eu, in natura,
estado puro de mim mesmo.

Todo amor é uma mulher que tenho;
todo amor é um amor perdido;
toda perda é uma saudade infinita;
todo fim é uma chegada;
toda chegada é impossível em vida.

Amei ela. Amei ela também.
Amo, amei e amarei sempre.
Crivado de balas no peito, insisto
em amar e em sofrer e em chorar.
É minha sorte, minha sina,
a trilha sonora de minha vida.
Aliás, música?
Deixei a melodia de lado.
Agora só presto atenção nas letras e nas palavras.
Quero respostas, e sei que hei de não encontrá-las tão cedo.
Só mais dúvidas,
mais perguntas sem respostas.
E o coração pulsando palavras
dos amores
de quatro anos e pouco
e de quatro meses e pouco.

Argh!

Calem-se todos!
Cansei de suas vozes vis.
Estas frases íntimas de seus covis
enojam a tenra parte de minh'alma.

Não dou mais ao ferro a palma
Não quero ouvir os latidos de seus canis.
Não quero mais suas cores gris,
Não mais sou aquele rio de calma.

Basta de minha vida ao avesso.
Ouvindo vocês, de mim esqueço.
Esses olhos vermelhos de cal

me dão medo; eu não mereço.
Basta de cobertores em que não me aqueço.
Basta! todos vocês me fazem mal!

Embaralhando-me

Posto que sou o que sou
e compreendendo quem sou
descubro coisa nova:
que sou também o que não sou.
Caso contrário, não seria o que sou
pois que para sê-lo
é necessária a oposição do que sou.
Assim sendo,
tendo sido sempre desse jeito,
sei que serei este mesmo.
Não mudo, apenas me perco
em desesperos e desmedidas
justificáveis pelo fato de
ser sempre o ser que sou.

Poética ode do retorno

Voltastes, vozes da poesia!
Retornastes do limbo infame.
Emudeci a caneta por curto tempo,
ensurdeci teus prantos,
fechei os olhos ao teu espelho.

O meu único orbigado é teu,
que não me abandonas em deserto
e não faz de mim sedento eremita.
E tuas palavras, água cristalina,
são e não são, são e não são
miragens no calor do peito,
espelho no pulsar do rosto,
conforto na tinta da caneta.

Retornastes, pro bem de mim.
Pro bem, retornastes de mim.
Pro bem de mim,
de mim...

22 dezembro 2005

Respondendo a alguém

Eu também.
Mais do que você imagina.
Mais do que o egoísmo possa exigir,
dentro de um sentimento de posse,
a exclusividade de tua ventura,
para meu lado, somente.

Eu também.
Minha madrugada se dividiu
entre chuva e lágrimas.
Mas o que é a chuva
se não o pranto de Deus ao ver
amores de verão se dissipando
na alegria do destino que se completa?
O que são lágrimas se não
uma chuva de sentimentos que afloram
pungidos das entranhas de um ser confuso?

Eu também.
Alucinadamente, reverto a memória e
revisito os momentos de ternura
e vejo, e concluo, que em verdade
é a vida em seu movimento errático
imprevisível, incerto, imaturo,
aparentemente sem destino (mera aparência);
e que pra ela não se deve parar nunca
sob o risco do assassínio de si mesmo.

Eu também
queria tirar da dor um sorriso;
também fui gargalhado pela vida;
também acabei ficando.
Mas talvez seja hora de atentar para
o caminho que se abre a sua frente,
e dar o primeiro passo é difícil,
mas talvez você descubra que
ser feliz é mais que sorrir da dor,
é mais que superar chocalhadas da vida,
é mais que permanecer em local seguro

Talvez ela seja o perigo de tentar descobrir
(e conseguir!)
o que os poetas tentam, e lutam, desde o início:
o significado do viver...
Sempre um risco, sempre uma perda.

Soneto para July

O branco, o alvo do teu olho
que, dizem, não enxerga nada,
engana aquele que se faz tolo,
que podendo subir, desce a escada.

Teus caminhos, aos quais me encolho,
teus caminhos são jornada.
Enquanto eu, sozinho, colho
lições aprendidas a ferroada.

Se a vida, em mais uma pedrada
tirar a vista de um caolho
tu enxergas além, imaculada,

estes desejos que sinto e recolho.
São saudades que tenho da amada
e do branco, do alvo do teu olho.

Destino

Há uma viagem a ser feita
com destino ao próprio destino.

Búzios não é a mesma sem você.
É cidade morta, vazia de graça.
Não emana o ardor daquela vez.
Te queria aqui, ao meu lado
pra uma terceira dose de amor buziano.
Mas você ficou... Tua felicidade mora longe.

Surpresas não são surpresas;
são medos de ser diferente do que
imaginávamos anteriormente.

Portugal te chama.
Vai. Eu fico, rezando por ti;
pra tua vida seguir o caminho
que ela deve seguir.
Lisboa pode ser mais distante,
mas é o destino certo
que Búzios tentou ser, e não é.

20 dezembro 2005

O Anel em meu Dedo

Este anel que trago no dedo,
presente descompromissado,
entregue de relance, de coração.
Este anel de prata
detalhado, talhado a dedo
que não sai por vontade mútua.
Lembrança, memória, posteridade;
eternizante de um momento.
Este anel pequeno, apertado,
mas do tamanho do mundo também,
que abraça o meu sentimento;
que me faz carinho, me alicia;
que é desejo, amor, ventura.
Este anel brilhante de luz,
reflete o meu íntimo ardor.
Inquietude da alma serena,
materializada, metalizada.
Este anel...
É ele quem me acorda,
é ele quem me dorme,
é ele quem me persevera
um novo amanhã,
mais doce, mais sincero,
"plus fort, plus grand".
É este o anel em meu dedo.

Difíceis Tempos para um Peito Apertado

Tenho medo de dizer...
Tenho medo de precipitar o que é pra levar um tempo.
A minha angústia é viver e sentir tudo isso
e não poder (ou ainda não querer) colocar pra fora,
por causa de um frio na barriga,
por medo.

Assim eu me tasco de novo.
Não aprendi ainda...
O tempo corre, não pára, já disseram.
Eu aqui, tremendo, estagnado.

Porra! quero dizer!
Quero transformar em palavras o que sinto.
Quero escrever com a alma e o coração
e deixar a razão de lado.
Quero fazer o que sinto, e não o que devo.

Enquanto isso, me alimento de sonhos;
de músicas que consolem a vontade;
Sempre a música!
de vontades que me consolem os sonhos;
de sonhos que alimentem a música.
Enquanto isso...

Detesto isso! Tudo isso!
Não faço o que quero.
Não digo o que sinto.
Não vivo o que vivo.

Quero dizer que amo, mas
ao invés, invento histórias pra disfarçar
o amor por ela.

O outro, incomodado

Você aí sentado nessa mesa.
Que lágrima é essa, cara?
Que choro que você contém?
Que angústia que você sente?

Não quero falar da vida, cansei.
Quero falar de coisas bobas.
Não evita o choro, deixa cair.
Mas fala de bebida, de sexo
Talvez até música.
Fala do mendigo, da paisagem.
Sei lá! Fala de qualquer coisa...

Mas deixa a vida pra lá.
Ela não é pra ser falada,
É pra ser vivida.
Faz que nem o Alvim,
Não fala, faz.

Pára de pensar e enxerga;
Pára de imaginar e projeta;
Pára de tentar e seja.

Deixa eu pegar a caneta, vai?...

Minha concepção (temporária) do sofrer

Elegia do homem comum
Vil tentativa de esperança
Dor fragmentária dos corações
Preleção eterna de quem vive
O que é o sofrimento
Senão a existência no mundo?
Senão o que nos lembra
A humanidade ignorada
Em ídolos de barro?

Sofrimento é, sim, dor.
É angústia, agonia, por amor;
É necessidade urgente do paraíso
Caminho sempre impreciso.
Insaciabilidade, desventura.
Remédio amargo, que cura.
Companheiro até a morte
Certeza, mais que a morte.
É redenção, degrau por degrau.
Batalha do bem contra o mal?
Não! Apenas vida, que se vive
Entre perdas e ganhos,
Surpesas e devaneios,
Entre o mito e o real.

19 dezembro 2005

Sentado na varanda

Amorfa, sem cor, sem brilho;
Sobe ao sabor do vento
Sem destino, sem objetivo.
Dissipa no ar em vida curta
Deixando a marca no lugar.
E só pára quando a mão leva
A bituca ao fundo do cinzeiro.
É a fumaça do meu cigarro
Me ensinando um pouco de mim.
É minha angústia, como tabaco,
Que faço questão de tragar
Pra cuspir de volta depois.