28 outubro 2005

Química Infernal

De olhos voltados para o chão
Chego na casa, largo a mala
Sento no sofá e espero o tempo passar.
Ela ali, fazendo a unha
E eu aqui, olhando o relógio.

Escrevo um texto, desabafo
Tiro do peito um saco de tijolos
Volto pra sala, pra televisão.
Ela ali, do meu lado
E eu aqui, fingindo tudo bem.

Tento dormir sem remédios
O pensamento vai embora pra trás
Acordo e tudo igual
Ela ali, de olhos vermelhos
E eu aqui, de olhos molhados.

Conversa, bebida, bronzeado
É difícil esquecer tudo
É fácil me perder em lágrimas
Ela ali, olhando pro mar
E eu aqui, olhando pro nada.

Mensagem no celular, êpa!
É dela mesmo? É isso mesmo?
Olho pra ela do meu lado
Ela ali, disfarçando a vontade
E eu aqui, surpreso e nervoso.

Puxo assunto, falo besteiras
Respondo a pergunta dela
Bebo mais um copo
Ela ali, contendo um sorriso
E eu aqui, pensando o que vou dizer

De volta pra casa, o papo continua
Um beijo nervoso acontece
Os outros invejam atônitos
Ela ali, colada ao meu corpo
E eu aqui, pensando no que fazer depois.

A noite chega, a gente sai
Vai pra farra, bebe de graça
Se beija, dança, faz besteira
Ela ali, me olhando e rindo de leve
E eu aqui, não acreditando.

A gente chega de carro
A gente fica sozinho
A gente dá uma volta
Ela ali, linda e nua em mim
E eu aqui, sem ação.

Deitados na rede, uma conversa
Papo vai, papo vem
O tempo voa e nem percebo
Ela ali, com suas manias estranhas
E eu aqui, falando de mim sem nexo

Voltamos pro mundo real
Tudo volta ao normal
Não posso dar um beijo
Não posso envolve-la em meus braços
Ela vai embora
E o telefone marca a distância
Mas não definha a vontade
Que tenho de beijá-la de novo.
E agora? Como consigo?

Ela lá
Eu aqui
E a química infernal entre nós dois.

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