Toda mulher que tenho é um amor.
Chego a esta conclusão, é provável, preciptadamente.
Mas essa voz contínua do vento batendo no gramado,
esses dois beija-flores brigando por um simples copo de água com açúcar,
aquele homem desgraçado, lá longe, trabalhando em sol a pino,
enquanto eu, burguesamente, me desenho em tolices;
essa amargura pra interpretar a vida,
sólida, solidária na minha solidão,
me fazem especular que amo cada mulher que tenho.
Alguns amores duram quatro anos e pouco;
outros apenas quatro meses e pouco.
Mas ambos são amores.
Ambos sofrem, desiludem, desventuram;
ambos trazem a memória imagens de tempos e lugares.
Não posso macular outra cidade com um novo amor...
Me mudarei para algum canto ermo
pra ver se levo pra bem longe essa dor.
Toda mulher que tenho é um amor;
todo sofrimento que sofro é uma dor;
toda dor que dói no peito é solidão;
toda solidão sou eu, in natura,
estado puro de mim mesmo.
Todo amor é uma mulher que tenho;
todo amor é um amor perdido;
toda perda é uma saudade infinita;
todo fim é uma chegada;
toda chegada é impossível em vida.
Amei ela. Amei ela também.
Amo, amei e amarei sempre.
Crivado de balas no peito, insisto
em amar e em sofrer e em chorar.
É minha sorte, minha sina,
a trilha sonora de minha vida.
Aliás, música?
Deixei a melodia de lado.
Agora só presto atenção nas letras e nas palavras.
Quero respostas, e sei que hei de não encontrá-las tão cedo.
Só mais dúvidas,
mais perguntas sem respostas.
E o coração pulsando palavras
dos amores
de quatro anos e pouco
e de quatro meses e pouco.
